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By Ferramentas Blog

domingo, 10 de abril de 2011

AVULSO - ZILTON ANDRADE

ZILTON ANDRADE

 

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Discurso pronunciado na Academia de Medicina da Bahia

 

Geraldo Leite


 
 
 
Minhas Senhoras,
Meus Senhores

Quais - ilustre Presidente, queridos confrades e visitantes, ­os principais problemas que atormentaram o homem do nosso tempo?

No princípio deste século, direis vós, a causa de tais proble­mas, segundo FREUD, era a dificuldade de acomodar, sem trau­ma nem ofensa, de um lado o homem e seus instintos e, do outro, a sociedade e seus tabus.

Mais tarde, acrescentareis vós, lá pelos anos 20, de acordo com OTTO RANK, as raízes de tais problemas passaram a ser os sentimentos de inferioridade e de culpa, os quais tingiram de opacas cores uma década de desânimo e frustração.

Em seguida, complementareis, nos anos 30, no dizer de KAREN HORNET, o epicentro de tais problemas deslocou-se para a arena do confronto e da competição isto é, para o campo da luta entre indivíduos, grupos, raças e partidos, o que resultou num grande conflito - o maior da história - o qual lançou no jogo ar­dente de uma guerra, quase interminável, um sem-número de povos e nações, tão distantes quanto contraditórios.

Depois, direis vós, veio o arremedo de paz, a desconfiança e a exaustão e com ela uma nova era, retratada de modo admirável por ROLLO MAY em sua obra, hoje célebre: "O HOMEM À PRO­CURA DE SI MESMO". Nesse livro afirma o mestre, de modo textual: "Pode surpreender que eu diga, baseado em minha ex­periência profissional, assim como na de meus colegas psicólo­gos e psiquiatras, que o problema fundamental do ser humano, no meado do século 20, é o vazio. Com isso quero dizer não só que muita gente ignora o que quer, mas também que freqüen­temente não tem uma idéia do que sente. Quando falam sobre a falta de autonomia, ou lamentam sua incapacidade para tomar uma decisão - dificuldades presentes em todas as épocas - tor­na-se logo evidente que seu verdadeiro problema é não ter uma experiência definida de seus próprios desejos e necessidades. Oscilam desse modo para aqui e para ali, sentindo-se dolorosa­mente impotentes porque de fato são ocos, vazios."

Na verdade, poucos, naquela época, ao raiar dos anos 50, tinham capacidade de tomar uma decisão, que marcasse para sempre o rumo de uma vida! Poucos, assombrosamente pou­cos, ainda nos bancos da Faculdade de Medicina - então a única entre nós existente - não oscilavam, como disse o mestre, para aqui e para ali, numa pendular indecisão, verdadeiramente Shakesperiana, do ser ou não ser, do ir ou não ir, do fazer ou não fazer.

Um dentre nós, no entanto, se destacava dentro da nossa turma, a dos médicos do Ano Santo, doutorandos de 1950. Refi­ro-me, senhores, a Zilton de Araújo Andrade, nascido em Santo Antônio de Jesus, naquela década de opacas cores, naquele decênio de depressão e desânimo.

Eu me lembro, eu me lembro ainda, daquele colega, no quarto ano médico, ao meu lado. Sóbrio, comedido, quase sem falar, ainda estudante, na Gonçalo Moniz, no fim de linha do Canela, tomava aulas com Mangabeira Filho, Samuel Pessoa, Pedro Janine, Carlos da Silva Lacaz, Herman Lent, Lobato Paraense e outros luminares da ciência brasileira, cavando com as mãos a força do destino!

Enquanto nós, seus companheiros, estudavam por estudar, aprendiam por aprender, ele - àquela época já ao lado de Sônia - conquistava passo a passo, em um ritmo cada vez mais acele­rado, os degraus da vida, numa persistente procura de si mesmo. Ele, naquela altura, já sabia qual a sua trajetória, qual o caminho que iria percorrer e fazia de Sônia, sua futura companheira, sua primeira colaboradora.

Eu me lembro, eu me lembro ainda, daquele 14 de dezem­bro de 1950, dia da nossa formatura. Naquela época não havia em nosso meio uma estrutura bem definida, um suporte suficien­temente forte para garantir a um jovem de limitados recursos um eficiente sustentáculo para a pós graduação. Ele, todavia, era um predestinado. Os obstáculos não o desanimavam. O seu tigmo­tropismo era por demais acentuado. Enquanto todos nós esvoa­çavam, no dia seguinte, cada um em busca do seu destino, uns para Feira de Santana, outros para Jequié, Vitória da Conquista, Ilhéus, Itabuna ou Salvador, ele, Zilton Andrade, como uma águia - a mais possante e majestosa de todas as aves, ave que simbo­liza a força e a nobreza - alçou vôo e na Faculdade de Medicina da Universidade de Tulane fez, de 1951 a 1953, sua Residência em Patologia.

Daí regressou para o Brasil e, na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, conquistou o doutorado. De volta à Bahia, pou­sou a águia no seu ninho, o vetusto berço da medicina pátria e conquistou a livre docência.

Voltou logo em seguida para os Estados Unidos onde, na qualidade de pesquisador, permaneceu no Hospital do Monte Sinai, em New York, cerca de dois anos.

Em seguida tornou-se professor visitante do departamento de patologia do CORNELL UNIVERSITY MEDICAL COLLEGE.

Novamente na Bahia, com um currículo considerado como um dos melhores do seu tempo, prestou, em 1974, concurso para professor titular de patologia, na antiga Faculdade de Medicina, a sua faculdade, primaz do Brasil, e conquistou com galhardia a cadeira outrora ocupada por Gonçalo Moniz, Otávio Torres e ou­tras expressões, as mais altas, da medicina baiana!

Ao título de professor de patologia, associou o de pesquisa­dor titular do Instituto Oswaldo Cruz; o de Chefe do Laboratório de Patologia do Hospital das Clínicas; o de Chefe do Departa­mento de Patologia e Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia; o de Diretor do Centro de Pes­quisas Gonçalo Moniz; o de Chefe do Laboratório de Patologia Experimental do Centro de Pesquisas Gonçalo Moniz; o de mem­bro do Conselho Nacional de Pesquisas, para os programas de Patologia e Doenças Tropicais; o de membro do Conselho Técni­co - Científico do Instituto Oswaldo Cruz; o de Presidente da So­ciedade Brasileira de Patologistas; o de Presidente da Sociedade Brasileira de Hepatologia e o de Presidente da Sociedade Brasi­leira de Medicina Tropical, além de honrarias internacionais (des­tacando-se dentre estas a de membro do Grupo de Trabalho da Organização Mundial de Saúde para estudo da Esquistossomose e da doença de Chagas; o de membro do Comitê de Especialis­tas da Organização Mundial de Saúde, para Imunologia e Parasitologia).

Os triunfos conquistados ao longo de tão luminosa trajetória não perturbaram o seu caráter simples e cordial, mesmo porque a eles outros foram somados: Prêmio ALFRED JURZYKOWSKY, da Academia Nacional de Medicina; membro honorário da Sociedade Argentina de Cardiologia; prêmio nacional de Ciência e Tecnologia, conferido pelo Conselho Nacional de Pesquisas; pro­fessor emérito da Universidade Federal da Bahia; membro hono­rário da Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene; comenda Euclides de Jesus Zerbini, conferida pela Sociedade Brasileira de Cardiologia; membro emérito da Sociedade Brasileira de Patologia, etc.

Dentre as publicações que honrou com o seu nome figuram diversos capítulos de vários livros de texto, publicados no Brasil, na Argentina e nos Estados Unidos, além de mais de uma cente­na e trabalhos originais, dados à luz em periódicos nacionais e estrangeiros, dos quais destacamos os editados pelas revistas IMUNOLOGY, INTERNATIONAL JOURNAL OF EXPERIMENTAL PATHOLOGY, HUMAN PATHOLOGY, AMERICAN JOURNAL OF TROPICAL MEDICINE AND HYGIENE, AMERICAN JOURNAL OF PATHOLOGY, VIRCHOW'S ARCHIV, MEMÓRIAS DO INSTITUTO OSWALDO CRUZ, REVISTA DO INSTITUTO DE MEDICI­NA TROPICAL DE SÃO PAULO, ACTA HEPATOLÓGICA, RE­VISTA DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE MEDICINA TROPICAL e muitas outras.

Dentre as homenagens recebidas por ocasião do seu qua­dragésimo quinto ano de formatura, destacamos a Ordem de Mérito Científico, conferida pelo presidente da República Federativa do Brasil; a placa comemorativa da Associação Bahiana de Medici­na, pelo fato de ter sido o seu nome incluído entre os mais desta­cados cientistas brasileiros pelo I.S.I dos Estados Unidos; a me­dalha José Silveira, instituída pelo Rotary Clube do Brasil.

Este é o homem que a Academia de Medicina da Bahia ho­menageia nesta noite!

Concluindo, tomo como minhas as palavras de LYNN WHITE JUNIOR, no seu livro "AS FRONTEIRAS DO CONHECI­MENTO." Ei-las, tal como foram escritas:

"Não são as revoluções da política, mas as revoluções silen­ciosas da inteligência que modificam o curso da humanidade. O timão e a rédea eram mais poderosos do que César e a bússola e a imprensa mais contribuíram para modificar a face da terra do que as guerras de Napoleão".

Quanto à medicina brasileira, senhores, os trabalhos de Zilton Andrade foram uma revolução. Os aspectos anatomopatológicos da Patologia Tropical do nosso país só passaram a ser bem com­preendidos depois dos seus estudos e publicações.

Este é o homem ao qual, a Academia de Medicina da Bahia - e, porque não dizer, a Bahia inteira - com reverência, respeito­samente se curva!




PAVILHÃO ZILTON ANDRADE
CENTRO DE PESQUISAS GONÇALO MONIZ
FIOCRUZ, SALVADOR (BAHIA)
                            

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