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By Ferramentas Blog

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

277- OCTÁVIO TORRES

277- OCTÁVIO TORRES
A SABEDORIA
*
Nasceu em Mucugê, Bahia, no dia 25 de setembro de 1885, sendo seus pais Tranquilino Leovigildo Torres e Maria da Purificação França Tores.
Iniciou os primeiros estudos com o seu próprio pai, continuando-os no Colégio 8 de Dezembro e no Colégio 7 de Setembro, em Salvador.
Freqüentou o Liceu de Artes e Ofícios e a Escola de Belas Artes, onde optou pelos cursos de Desenho e Escultura.
Em 1904, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, pela qual foi diplomado em 1909, quando defendeu tese intitulada “Contribuição ao estudo dos anquilóstomos na Bahia”.
Em 1912, foi nomeado Preparador de Patologia Geral. No ano seguinte, livre- docente da mesma cadeira. Em 1918, professor substituto e, finalmente, professor catedrático (1926).
Estagiou em diversas universidades norte-americanas, inclusive na mais antiga e tradicional, a de Havard.
No Instituto Rockfeller, foi aluno de Noguchi, especializando-se em doenças tropicais e patologia experimental.
Ensinou anatomia plástica e anatomia artística, na Escola de Belas Artes.
Homem de diversificada cultura, publicou mais de uma centena de trabalhos sobre variados assuntos: medicina, ciência experimental, literatura, genealogia, geografia, história, folclore, biografia, sociologia, etc.
Instalou o ambulatório para o tratamento das leishmaníases, utilizando o tártaro emético.
“A obra que lhe perpetuou o nome, disse Dantas Júnior, foi, sem dúvida, a campanha contra a lepra. Observando, na qualidade de professor da patologia e, igualmente, na de clínico. Fundou a “Sociedade Baiana de Combate à Lepra”. Foi uma grande, ingente tarefa a que se propôs, com um desenganado amor “ (Loureiro).
Acrescentou Loureiro de Souza: “Imensa a sua bibliografia. Imensa e valiosa, das mais brilhantes e úteis de que se tem notícia na Bahia, quiçá no Brasil. Otávio Torres, honra e glória da ciência, figuraria, com relevo, entre os heróis de Plutarco”. (Ibidem).
Faleceu em Salvador, no dia 31 de maio de 1963.
“Que os moços saibam enaltecer a obra científica e social do Prof. Otávio Torres, brasileiros dos mais ilustres, trabalhador infatigável,  o grande animador da campanha pró-lázaros em terras da Bahia” (Lacaz).

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
1.   Lacaz, Carlos da Silva – Vultos da Medicina Brasileira. São Paulo, 1966.
2.  Loureiro de Souza, Antônio – Baianos Ilustres. Salvador,, 1973.

ANEXO I
DEPOIMENTO DE RUY SANTOS (I)
(Extraído de Santos, Ruy – Retratos. Universidade Federal da Bahia. Salvador, 1991)
A SABEDORIA
*
“Dou início às celebrações do 1º centenário de um homem de ciências, de letras e de artes; homem de prenome clássico, imperial mesmo: Octavio; e com o nome bem ajustado às suas elevadas metas existenciais: Torres.
Em vão busquei um adjetivo que melhor qualificasse esse homem substantivo. Encontrado, teria, ao menos, o estribilho assegurado; um bordão para estar bem apoiado.
                                                                                   *
Octávio Torres ... Como qualificá-lo?
Para fugir ao sui generis, latino, mas, muito usado – dí-lo-ia um homem singular. Todavia, sendo multifário – como o qualificou um dos seus panegiristas, isto é, homem de muitos fazeres, deveria dizê-lo um homem plural.
Hesito, como toda pessoa em dúvida, por não gostar do multifário e por me perguntar se, um homem cheio de singularidades, não será um homem em pluralidade?
Porque legítimo, seja-me lícito contar-lhes as pluralidades ou, se preferirem, as singularidades de Octávio Torres, à minha maneira: em ritmo irregular de tempo e de andamento – tempo, meu; o andamento, dele. Contar-lhes-ei como ambos marcaram minhas descobertas e, dele, as revelações.
*
Quem me dera conseguir luzes, suficientes para tornar bem clara cada história feita de vivências episódicas à mesma inicial dos qualificativos: E, letra afirmativa e apoditíca, como apodítico e afirmativo ele sempre foi, embora dissimulasse para simular o contrário.
No princípio, meu conhecimento dele foi um alumbramento; depois, da instantaneidade caiu em lassidão progressiva, em lenta e longa marcha irregular, assim como a evolução da credulidade para a certeza, da ingenuidade para a crítica, da intuição para o ente de razão, conceitual.
Conheci-o de nome e de legenda, bem antes de conhecê-lo de carne e osso, com casca e com caroço. E demorei, bastante, para saber-lhe a polpa, a cica, o sumo e suco – ainda ignorando a árvore donde proviera, sua forma de cultivo, seus fertilizantes. Enfim, um conhecimento pleno e cabal, pelo menos para o meu entendimento, com o qual se afinou o sentimento.
Então, sucessivamente, compreendi Octávio Torres – como ´pico, exímio, extemporâneo, exótico, excêntrico, esquisito, erudito, extraordinário, estranho, excepcional !
Em 1936 – quando devorava estórias de capa-e-espada Octávio Torres de história oral , contada por meu Pai, que o tornou um épico para mim. Sua cruzada heróica pró hansenianos da Bahia, ficou sendo minha predileta novela de cavalaria; ele, o cavaleiro andante, derrubando muralhas de superstição; abalando castelos de preconceitos, sensibilizando estátuas, extraindo dinheiro da pedra. Octávio Torres empolgou-me, embora em seu apostolado usasse burel de franciscano invés  de armadura.
Mesmo hoje, quando recordo tais ardores de minha adolescência, ainda me empolgo mais do que ontem.
*
Em  Mucugê, onde ele nasceu – assim me foi contado – ainda menino, viu, pela primeira vez, um leproso. Mais que a horrível máscara do morfético, feriu-lhe, indelevelmente, a sensibilidade, o opróbrio dos sãos: a virar o rosto; a mudar de lado da rua; a fechar os portões e cancelas, portas e janelas; até ameaçar o desgraçado!
Em sua cruzada, Octávio Torres fez todas as peregrinações possíveis para sensibilizar pessoas e angariar recursos; era apóstolo evangelista; era pregoeiro e mendicante. Fez até o impossível – dir-se-ia à época: promoveu- não sei como se chamavam então – “shows” artísticos, graças à desenganada e desassombrada produção de Jú Guimarães e Humberto Porto, socialmente vistos de soslaio, porque eram boêmios assumidos.
E desde os anos cinqüenta, ali está a terra santa conquistada: Águas Claras; e, nela, um modelar leprosário,o santo graal de sua cruzada.
Para a posteridade, felizmente, também ficaram páginas impressas, escritas à guisa de relatório da conquista e compartilhadas com diversos Cirineus; a medalha de ouro “Oswaldo Cruz” – que lhe outorgaram como reconhecimento nacional; e um busto seu, em bronze, à entrada da colônia, como gratidão da Bahia.
É preciso ainda acrescentar um episódio, sumamente expressivo, verificado na manhã da inauguração da Colônia de Águas Claras.
Uma autoridade local – sanitária por investidura – reclamou dele os esgotos a céu aberto. Mesmo recebendo as explicações científicas que asseguravam serem águas assépticas, provindas da estação de tratamento – a fisionomia da autoridade não se desanuviava. Então, Octávio Torres, calmamente, curvou-se, molhou o indicador naquelas águas e o pôs na boca... Entre parvo e pasmo, o sanitário ilustre afastou-se apressado!
*
Em 1909, laureado em Medicina, com seu colega Almir de Oliveira –não receberam o sonhado prêmio de viagem à Europa, extinto, naquele ano, pela Lei Rivadávia.
Octávio Torres soube compensar-se, nos dois anos seguintes, servindo como médico da marinha mercante, contratado pela Companhia Lloyde Brasileiro. Os países da Bacia do Prata nada lhe despertaram; os Estados Unidos, muitíssimo.
Entre 1914 e 1918 sua guerra foi outra: carreira de magistério superior, na Faculdade de Medicina da Bahia. Primeiro, por indicação, professor preparador; depois, mediante concursos, docente livre e professor substituto – sempre em Patologia Geral, orientado por Gonçalo Moniz, até à cátedra.
Após esta ascensão docente, pugnou por especializar-se na América do Norte, logrando ser comissionado pelos governos estadual e federal, além da obtenção de uma bolsa da Rockfeller Foundation.
Foram dois anos de intensos estudos teóricos e acurado tirocínio prático. Um ano, o de 1924, na Universidade de Harward, integralmente dedicado à Patologia Geral e Experimental e à Patologia Tropical, ocupando posição categorizada na equipe do notável Prof. Noguchi. No ano seguinte, trabalhou nos serviços de saúde de New York, do Alabama e da Georgia; na Louisiania, especializou-se em Lepra; em Washington, fez curso de Higiene; e na Universidade de Columbia, especializou-se em Química Biológica.
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ANEXO II
DEPOIMENTO DE RUY SANTOS (II)
(Extraído de Santos, Ruy – Retratos. Universidade Federal da Bahia. Salvador, 1991)
A SABEDORIA
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“Octávio Torres voltou à Bahia em dezembro de 1925; a 28 de janeiro de 1926, tomou posse como professor catedrático de Patologia Geral, sucedendo o padrasto – sucessão freqüente à época...
A partir daí, introduziu, na Bahia, técnicas laboratoriais, novos conhecimentos científicos – exercendo incessantes atividades de ensino, pesquisa e extensão; na Faculdade de Medicina, para os alunos; para os colegas médicos, no Hospital Santa Izabel, nas manhãs de domingos e feriados; para os outros, no seu bem equipado laboratório particular, situado em São Pedro, logo depois do relógio, à direita de quem desce, bem defronte à Fundação Politécnica no térreo de um casarão que fora residência de Pethion de Vilar, hoje demolido, cujo último inquilino foi a “Loja Athayde”.
Em Patologia, Leprologia, Doenças Tropicais, Microbiologia e Dermatologia – Octávio Torres foi exímio conhecedor e exato publicista. Sua bibliografia científica, até 1949, cataloga 204 trabalhos – o primeiro sobre anquilóstomos, o último sobre filaria no cão. De permeio, escreveu e publicou – diversas vezes em inglês – sobre actinomicose, granuloma ulceroso, leishmaniose, paludismo e coma palustre, miíases, verminoses, nevralgia facial (seu irmão e assistente Enoch fora paciente e padecente) gandú, Triatoma megistus sífilis hereditária, anomalias dos uretérios, esporotricose, febre paratífica B, cálculos biliares, esquistossomose, quelóides, grupos sanguíneos, meningite pneumocócica, úlceras tropicais, botrioma, microfilária, heterotaxia, etc. Tantos e tais trabalhos lhe granjearam renome regional, nacional e internacional.
Como fácil de perceber, foi além daqueles cinco campos científicos enunciados. Muito além, exorbitando, se considerados seus mais de cem trabalhos literários, conforme catalogação.
Para tamanha proficiência, Octávio Torres sacrificava sua atividade médico-clínica e de análise – onde, certamente, teria enriquecido, outra não fosse sua hierarquia de valores, com os do espírito no ápice de sua pirâmide axiológica – geometrização comum aos Torres.
*
Num tempo em que o ensino superior era plasmado na facúndia, Octávio Torres – que não era eloqüente, nem alimentava pretensões retóricas;embora privasse  de Bernardes e de Vieira, de Monte Alverne e de Ruy Barbosa; embora da Bahia e na Bahia, catedrático de Medicina e de Belas Artes (Anatomia Artística), firmou sua extemporaneidade, com  uma dialética  alheia àquele fulcro irisado, tipicamente à francesa. Adotou o sistema aprendido na América do Norte, não se acanhando , nas aulas, por opacas que pudessem parecer – de consultar fichas e tabelas, de representar esquemas e classificações, detalhando tudo, minudentemente, , dir-se-ia, monotonamente.  E culminava em dispensar à matéria versada rigoroso tratamento estatístico: curvas ascendentes e descendentes; cálculos de probabilidade sobre indicadores de realidade; valores relativos e valores absolutos em análises;  tabulações- tudo escrupulosamente verificado  e artisticamente  elaborado pelo seu assistente- o irmão Enock.
*
Quando o conheci, pessoalmente, num verão, a custo o riso contive.  Mal pude sustentar-lhe o olhar prescrutante – porque meus olhos tendiam  para baixo,imantados pelo seu guarda-chuva.
Que peça exótica!
O cabelo era amarelado, encardido no arco que a mão empolgava; as varetas eram brancas; e o panejamento, verde claro, por fora, e amarelo esbranquiçado , por dentro. Pareceu-me bem maior que todos os que já havia visto; era quase sombrero de praia...
Ambos depois, em sua casa, abordei a questão. Ele, com um sorriso maroto- maior nos olhos que na boca – apresentou-me seu guarda-chuva, de tamanho,cabo, varetas e panejamento rigorosamente nos padrões vigentes; um guarda-chuva standard.
Em seguida, apontando-me a peça exótica, também pendurada no cabide do hall, disse-me incisivamente:
-Este é o meu guarda-sol. Se fosse preto, torraria meus miolos, invés de me dar sombra.
Senti-me a sorrir amarelo, sem ter o que responder, quando ele arrematou:
- As mulheres usam sobrinhas, não é lógico?
Do seu exotismo, ainda tomei outra boa lição.
Os bolsos externos dos seus jaquetões, viviam sempre estufados. Cheios de que, eu não sabia. E sem nada lhe perguntar fiquei sabendo de visu e cansei de envergonhar-me!
No bolso direito: bolas de borracha, dessas de soprar para encher; apitos, bolas de gude, línguas soltas de sogras, carrinhos e bonequinhos de celulóide. No bolso esquerdo: queimados, bombons e balas (jamais”chocolate, que era muito quente para o trópico; e chiclete, que não fazia bem à salivação, além do risco de ser engolido”)!
A freguesia do doutor Octavio era grande, na vizinhança e fora dela. Em seus trajetos pela Avenida Joana Angélica, Tororó, Campo da Pólvora e Boulevard Suíço; ou pela Ribeira, Penha e Bogari  - sempre havia meninas e meninos a terceptarem seu andar passeiro para serem por ele mimados e presenteados. Nesta época, já o chamavam O. Torres, tendo dado baixa ao Dr. Octavio – com anuência dele. Só uma vez, uma única vez, involuntariamente, chamei-o de Tatá, recebendo uma branda e bondosa admoestação:
- Por que não Tio Otávio?...
Para não perder a deixa, respondi-lhe, com ironia:
-A partir de oitubro (que era como ele pronunciava)!
Antes tivesse perdido a deixa, porque ele me fez perder a graça...contando-me toda a história dos calendários ocidentais, com algumas incursões nos orientais e explicações adicionais sobre a contagem do ano. Nos arremates, sempre uma espetadela na Igreja...
*
Para quem haja conhecido os Torres, a excentricidade não surpreende. Para quem não os conheceu, bastaria dizer: à exceção do mais velho, Mário, eles sempre viveram em clã, sob o mesmo teto e sob o matriarcalismo de Dona Lilí – totem vivo e amado por todos: filhos, noras, netos, parentes e amigos; todos os que residiam ou freqüentavam o Bângala, 31, ou o Campo da Pólvora, 85 – ambos sobradões, este já derrubado pela proliferação bancária. Neles reinou a fraternidade; neles a confraternização era princesa;neles a mesa era farta, sempre havendo lugares para muitos, além dos comensais habituais e dos constantes hóspedes. Tudo e todos sempre em paz, embora, à distância, grande fosse o alarido. Por ela, Dona Lilí, Octavio transplantou para a Bahia, com sucesso absoluto no implante, o Dia das Mães.
Ele, o segundo filho, desde menino com saúde precária, viveu em permanente regime alimentar, cercado de resguardo, limitado por restrições. Todos os outros irmãos, sobretudo Jayme (o líder, que ironicamente morreu mais cedo) praticavam esportes intensamente: Oscar, Carlos e Enock. Disse todos e já me arrependo: Mário e Celso, mas velhos não deveriam formar naquele grupo. Deveriam estar presos à intendência,, talvez à artilharia, nunca na infantaria.
Dos enteados de Gonçalo Moniz – que sendo um sábio, era, naturalmente excêntrico- Octavio o mais ligado a ele, o de mais estreito convívio, seu sucessor inclusive. Por isto, presumo, também se confessasse ateu, no que jamais me convenceu. Panteísta deveria ter sido: tinha sensibilidade à beleza, era pródigo em bondade, amava contemplativamente a natureza. Por outro aspecto:  graduado distintamente em Desenho e Escultura, aluno dileto de Santi, nos seus lazeres, estava sempre ocupado a desenhar e esculpir.
Ainda outra excentricidade, embora compulsória; os três Torres mais velhos (Mário, Octavio e Celso), na contingência da orfandade paterna, por estrita necessidade econômica, copiaram, à mão, todos os livros textos dos seus primeiros anos nas faculdades de Direito, Medicina e Engenharia. Cadernos e mais cadernos, caprichosamente manuscritados, com ilustrações inclusivamente.
Não preciso contar mais nada, em mais comentar... fora do centro comum dos demais mortais.
*
Vamos adiante, a hora está adiantada e ainda há mais pra relatar. Agora no plano da esquisitice.
Suas três sobrinhas (aninha, Lilia e Célia – esta afilhada de  batismo) levaram algum tempo para entender o tio Octavio (Tatá).Quando lhe pediam alguma coisa, geralmente ele negava; quando deixavam de pedir, então recebiam, muitas vezes acima pedido.
Apreciam esta episódio, o mais ilustrativo da esquisita pedagogia de Octavio Torres.
Uma das sobrinhas – creio que a predileta, embora ele jamais admitisse  predileções – queria ir a um “reveillon”... Queria porque queria. Ainda não tinha os 15 anos da iniciação, nem havia quem a levasse ao clube desejado. Se fosse nos Fantoches – uma segunda casa dos Torres, não haveria dificuldade alguma. Mas ela queria ir ao Bahiano e batia o pé, invés de chorar, acender vela e fazer promessa.
Pois bem, na ante-véspera do “réveillon”, Octavio Torres entrou para sócio do Bahiano, mandou escovar o smocking, engomar a camisa, brunir o sapato e... lá se foram ao “réveillon”: ela, em êxtase; ele, resmungando que voltariam logo depois da meia noite ...
Pelo Natal, embora não aparecesse, sempre mandou sacos de brinquedos para os Órfãos de São Joaquim e da Pupuleira, promovendo, além disso, a comemoração no Leprosário, nesta, de corpo presente.
Com Loureiro – o único dono de sebo, que não sendo careiro morreu pobre – Octavio Torres mantinha uma conta corrente graúda. Todos osmeses comprava livros aos pacotes; e no porão do 85, as pilhas iam crescendo. Certa feita, intrigado, propus-me arrumar seus livros. Ele concordou.
Levei uma semana perdendo a  praia e ganhando poeira, mas, consegui dar alguma ordem à livralhada. Disse-lhe, então, haver encontrado um sem número de duplicatas e numerosos livros que não mereciam estar em sua biblioteca. Sua resposta me estarreceu:
-Souzão (como Gonçalo Moniz) era chamado familiarmente) tinha na dele até “Tico-tico”...
Não dei por vencido e contra-argumentei com as duplicatas. Sua proposta me derrubou o queixo:
-Faça o seguinte: primeiro, separe para você os livros que lhe interessam; depois, com as duplicatas e outros livros, a seu critério, refaça pacotes evitando duplicatas de títulos de cada um.
Em entender mais nada, mas, feliz com a perspectiva de engordar minha biblioteca, meti mãos à obra. Voltei para casa de taxi, suado e empoeirado, levando mais de cem livros, escolhidos a dedo. No dia seguinte, comecei a
fazer pacotes, desfazendo e refazendo pilhas. Trabalhei mais do que antes, assim como se lhe quisesse pagar a doação.
Alguns dias depois, por mera curiosidade, perguntei a Brasília – empregada de confiança  - pelos pacotes. Um caminhão tinha vindo buscá-los e doutor Octavio tinha ido também. À noite, quando o encontrei, perguntei pelo destino dos livros.
Antes de responder-me, Octavio Torres perguntou-me pelos que eu tinha levado; se gostara, quais já havia lido... Depois, sem se preocupar em ouvir minha resposta, porque não me deu tempo, sorrindo, ele me mostrou uma lista datilografada com nomes de colégios e de escolas e em linhas pontilhadas as assinaturas que comprovavam o recebimento.
Última esquisitice de Octavio Torres. Em testamento, legou à irmã e ao irmão, menos desafogado financeiramente, dois imóveis residenciais, um na Penha, outro na Mangueira. Post mortem dos legatários os respectivos imóveis reverteriam para posse do Instituto Histórico e desta Academia de Letras.”

ANEXO III
DEPOIMENTO DE RUY SANTOS (III)
(Extraído de Santos, Ruy – Retratos. Universidade Federal da Bahia. Salvador, 1991)
*
“Para continuar na órbita cultural, darei a notícia de Octavio Torres, sob outro aspecto: o erudito. Tomarei como testemunhas José Calazans e Cid Teixeira.
Em qualquer assunto, a qualquer hora, quer quer que necessitasse... era só pedir-lhe, mesmo por pessoa interposta. Com enorme disponibilidade, surpreendente presteza e proverbial exatidão, Octavio Torres colaborava esclarecendo, transcrevendo ou simplesmente indicando as fontes pertinentes à consulta que lhe fora feita. Por vezes, até emprestando livros, mesmo de edições esgotadas.
Desde Medicina, como é obvio. Octavio Torres versava História, Geografia, Demografia, Estatística, Filosofia, Literatura, Química, Artes, até Floclores – para não falar de Genealogia.
Quem teve eficientes cirineus – como os irmãos Mário, Oscar e Enoch, como a prima Elza; como os amigos Garrido e Armando Pondé – não ficou mal habituado, ao contrário, procedia como Cirineu, sempre que lhe fosse possível, porque o peso da cruz era muito seu conhecido. Vale lembrada, a grande, oportuna e desinteressada ajuda a Pirajá da Silva – para falar apenas da maior.
Sei que esta analogia que vou estabelecer não é de identidade, mas inquestionavelmente, é de proporção: quanto ao casamento, Octavio Torres deu duas provas de erudição ! Casou-se em primeira núpcias, já cinqüentão, com Maria Carolina Gomes Pereira (Dudú) – sua ex-auxiliar no laboratório; e ela, em pouco tempo, passou a ser fiel companheira, além de braço direito de Dona Lili, na economia doméstica e na diplomacia familiar do clã dos Torres.
Aos 65 anos, em segunda núpcias, casou-se com a ex-aluna doutora Carmem Mesquita – que o ressuscitou para os prazeres da mesa, alforriando-o de um semi-secular regime alimentar de asceta.- excetuados os fins de semana e dias festivos, que passavam a ser tribais, embora tão harmoniosos quanto os dias clámicos; fenômeno que considerei natural; entre Torres e Mesquitas, afinal, reunião de muezins e crentes...
*
Sem qualquer exagero, proclamo que, Octavio Torres sozinho e por muito tempo – foi a pró-memória baiana. Seus desenhos preservaram grande parte do nosso patrimônio histórico e artístico.
Faz-se, porém, necessário que esses extraordinários trabalhos sejam reunidos, para melhor completar o passado da Bahia. Sobremodo no casario, os carvões de Octavio Torres são de valor inestimável. Centenas de desenhos hoje dispersos, a merecer integração num panteon, num salão no próprio Memorial da Medicina, cuja primeira fachada foi por seu desenho salva; quem sabe, no Instituto Histórico fundado, entre outros, por Tranquilino Torres, seu pai.
*
Estranho!
Como foi estranho esse Octavio Torres – estarão pensando os menos informados.
Estranhemos, então, todos nós agora.
Se fossemos – profissional ou diletantemente- patologista, leprólogo, higienista, geógrafo, demógrafo, genealogista, folclorista, polígrafo, desenhista, escultor, professor emérito de duas faculdades, membro de academias, esteio de sociedades médicas e outras agremiações científicas, rotariano praticante, condecoração nacional e busto na própria terra – sentir-nos-iamos ou não estranhos?
Sem dúvida nos sentiríamos estranhos, mais ainda sob o  rigoroso enfoque etimológico, porque extraneo significa deserdado – nós que não merecemos nem um terço daqueles talentos. E dentro nesta acepção estrita, cabe mais um estranho a este feito de Octavio Torres.
Na infância, sua saúde precária o deserdou dos folguedos de quintal, ao ar livre, principalmente no entardecer e à noite; o sol quente também não lhe era permitido; e as brincadeiras e esfogueamentos de rua... nem pensar.
É fácil imaginar quão difícil foi suportar tantos desejos reprimidos; quantas fantasias se esfumarem pela inconsistência; quantos sonhos e quantos sonhos e devaneios que se perderam ao ar. Pois bem, aos 66 anos, exatamente em 1951, Octavio Torres apresentou ao I Congresso Brasileiro de Folclore, realizado na então capital federal, um ensaio sobre arraias!
Ele que jamais empinara por certo ajudara ou fizera muitas. Ele que, de longe, da porta ou da janela, assistira tantas pegadas. Ele que participara na confecção de chaves, no aprimoramento das rabadas, na preparação do tempero – jamais enfrentou o sol, fio na mão, dedo no fio, dando jogo, provocando descaídas, gangolando para a puxada ou dando linha para a cortada. Nem uma só vez tornou-e-pegou ...
Todas estas emoções inesquecíveis pela dinâmica, ele recordou em forma estática: vinte densas páginas sobre arraias; duas de ilustração sobre suas formas, as chaves, os nós; quinze páginas de glossário; e mais duas, em pentagrama, com a letra e a música dos cantos dos empinadores; tenho duas à mão. E nelas leio-musicalmente:
                                       “Santa Clara e São Domingos...”
                                       “São Lourenço cadê o vento...”
                                       “Tem quiabo e tem jiló...”
E o canto guerreiro do desafio, muitas vezes assoviado, jamais porfiado: “Afrouxa se tem coragem...”
Que estranho e admirável desafio: 66 anos depois uma forma nova de pegada: arraia no mocó de um congresso!
Octavio Torres deu linha de carretilha. Octavio Torres não perdeu a coragem. Octavio Torres não galinhou. Octavio Torres tornou-e-pegou.Enfim, Octavio Torres liberou a criança que em todo homem habita.
Excepcional, extraordinário, excelente.
A ele, portanto e por fim, toda minha admiração neste respingado biográfico.
Se não consegui dizer tudo sobre Octavio Torres, valha-me a intenção de haver posto, em cada gota, um fulgor.
Setembro, 1985”







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