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By Ferramentas Blog

sábado, 29 de janeiro de 2011

126- FERNANDO JOSÉ DE SÃO PAULO (FERNANDO SÃO PAULO)

126- FERNANDO JOSÉ DE SÃO PAULO
    (FERNANDO SÃO PAULO)
 COMEMORAÇÃO DOS 200 ANOS DA FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA



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Nasceu, em 30 de maio de 1887, no arraial de Santa Bárbara, município de Feira de Santana, sendo seus pais Patrício José de São Paulo e Joaquina Mônica de São Paulo.
Concluídos os estudos iniciais, realizados em Santa Bárbara, mudou-se para Salvador, onde se matriculou no Ginásio São Salvador. Os preparatórios foram concluídos no Liceu Alagoano, em Maceió.
Em 1904, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia, pela qual colou o grau de doutor em Medicina, no ano de 1909.
Iniciou a vida profissional em sua terra e arredores, viajando a cavalo para visitar seus clientes.
Depois, a convite do Professor Prado Valadares, retornou para Salvador, onde, com o tempo, reuniu numerosa clínica, graças ao ato médico, baseado na “identificação acurada do cliente e uma anamnese bem conduzida, seguida de exame físico exaustivo, tudo registrado no livro, como se fora tabelião, além de, com freqüência, realizar o exame microscópico da urina” (1).
Agnóstico, converteu-se ao catolicismo, graças ao Padre Luiz Gonzaga Cabral.
Católico fervoroso, foi médico de seminaristas, padres, freiras, monges e do próprio Arcebispo Primaz, Dom Álvaro Augusto da Silva.
Com seu confessor, dialogava em latim.
Dentre seus clientes famosos, destacamos Ruy Barbosa, de quem foi fiel admirador, acompanhando-o em sua campanha de candidato à Presidência do Brasil.
Em 1915, fez-se Docente-livre de Terapêutica Clínica. Em 1918, professor substituto de Farmacologia. Em 1919, catedrático de Farmacologia (depois transferido para a cadeira de Terapêutica Clínica).
De suas numerosas publicações, destacamos “Linguagem médica popular no Brasil”, editada em 1970.
Purista da língua, amante das letras e das artes, detentor de invejável cultura geral, forneceu, à pedido da Academia Brasileira de Letras, valiosa contribuição para o “Dicionário Ortográfico da Língua Portuguesa”.
Pertenceu à Academia Nacional de Medicina, à Academia de Medicina da Bahia (da qual foi presidente) e outras numerosas instituições.
Lutou pela conclusão das obras do Hospital das Clínicas, a tal ponto que, certo dia, bateu às portas do Governo do Estado, a fim de solicitar recursos para a conclusão das obras. “À sua saída a autoridade maior comentou para um de seus auxiliares imediatos: “É a primeira vez que este professor, por todos os títulos, merecedor do nosso respeito, sobe as escadarias desse palácio para um pedido e o faz, não em benefício próprio mas em favor de sua instituição de ensino” (Ibidem).
Disse Sá Menezes: “Clinico à Miguel Couto – de quem foi amigo e admirador – discípulo amado de Prado Valadares – de quem foi interno e assistente -- forrado de todas as virtudes mais próprias ao apostolado clínico. Virtudes a que juntava uma grande cultura científica, esta acompanhada de vastos conhecimentos gerais, que o tornaram um perfeito humanista, de visão global e profunda” (4).
Faleceu em 1973, com oitenta e seis anos de idade.
Após sua morte, fui chamado pela família, a qual comunicou que a biblioteca do ilustre mestre havia sido doada à Universidade Estadual de Feira de Santana.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:
1.     Barros, Nelson – Fernando José de São Paulo. Anais da Academia de Medicina da Bahia, Volume IX, setembro de 1993.
2.     Fernandes, Lélia – Homens que fizeram História. Feira de Santana, 2004.
3.     Lacaz, Carlos da Silva- Vultos da Medicina Brasileira. São Paulo, 1966.
4.     Sá Menezes, Jayme – Na Senda da História e das Letras. Salvador, 1994.
5.     Tavares Neto, José- Formados de 1812 a 2008 pela Faculdade de Medicina da Bahia. Feira de Santana, 2008.


APÊNDICE I
DEPOIMENTO DE JOSÉ SILVEIRA
Silveira, José – Fernando São Paulo. Sinopse Informativa. Universidade Federal da Bahia, Vol. II, n. 2, outrubro. Salvador, 1978.

PROF. JOSÉ SILVEIRA

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“Fernando São Paulo, medico estudioso e brilhante, fora requisitado do interior, onde clinicava, para ser assistente de Prado Valadares. Iria revolucionar o ensino da Terapêutica, sobretudo lhe dando feitio clínico e prático. Nosso médico em Feira de Santana, a ele ficamos devendo a vida, no sério episódio  de envenenamento de toda a família. Vira-me, assim, garoto. Meu Tio Padre continuava seu cliente e amigo. Na Faculdade, entretanto, fez que não me conhecia. Nenhuma diferença de trato estabeleceu entre mim e seus demais discípulos. Receava, certamente, perder a imagem de professor imparcial e independente. Também, não me dei por achado. Nada fiz pra dele me aproximar. Estudaria a matéria, como de costume, e nada teria a temer.
Não sei se por essa circunstância ou por serem opostos os nossos temperamentos, o fato é que implicava com ele. Com sua postura solene e doutoral: com sua maneira formal e distante; seu gosto pelas minúcias, sempre catando pulgas, com seus escrúpulos, casos em apreço, muito que respigar, coisas de joeirar, discrimes a fazer; com estes e tantos outros cacoetes verbais, que o tornavam pretensioso e pedante, aos olhos dos mais livres e rebeldes como eu.
Minha vaidade tola de quintanista, acreditando que a Medicina era uma Ciência superior e exata, não me permitia aceitar o terra-terra daquelas noções, embora envolvidas em dourado linguajar.
Como admitir, no século das luzes, a prescrição de ungüentos e pomadas, elixires e julêpos, alcoolatos e tinturas de boldo e jurubeba, coisas corriqueiras, mezinhas primitivas, que aprendera a conhecer nos porões do velho Leopoldo em Santo Amaro?!...
Por isso, fiz corpo com os que dele duvidavam; com os que criticavam quando, nos chamando ao quadro negro, obrigávamos a prescrever diferentemente para o pobre e para o rico, numa discriminação, que nos parecia ridícula e pueril. Nem deixava de repetir, em côro, com os outros energúmenos, o verso que andava de boca em boca, de poeta desconhecido:

                                          “ Se teu fígado não melhora
                                          Pezar de tanta capeba
                                          Diminua na cainça
                                          Aumenta na jurubeba”.

Hoje, distanciados por dezenas de anos, vejo como éramos levianos e injustos.
Foi preciso sair da Escola, abandonar a Medicina sofisticada das cátedras, a prática médica  instrumentada e modulada dos hospitais de ensino, para compreender o sentido real e objetivo de todos aqueles discrimes e adequações.
Só o contato direto com a triste e lamentável condição sanitária do povo brasileiro, reinante em imensas regiões do país, onde continua a faltar tudo e só os remédios e as providências caseiras têm aplicação; só os que vêm como é cruel receitar medicamentos caros para os que não têm o mínimo para comer; só os que se metem por esses sertões a dentro, como ele próprio fizera ... poderão compreender quanto de útil, válido e oportuno havia no proceder daquele homem pequenino, empertigado, tez pálida e bigode  curto, cabelos negros e repartidos ao meio; cheio de esquisitices, rigorismos e insistências nas suas dietas e nos regimes...
Incompreendido, na época, por nós e pelos seus pares, foi, na verdade, o guia de que carecíamos; o único professor que se preocupou em nos ensinar qual deveria ser o nosso comportamento perante o doente, no Hospital ou na Clínica privada, mostrando-nos como recebê-los, conduzir o seu exame, falar a seu alcance, prescrever com correção e de acordo com a situação financeira, infundindo-lhe esperança e fé – fatores decisivos para sua cura.
Infelizmente, esse grau de compreensão estava fora do alcance do nosso entendimento, povoado de teorismo e fantasia. Daí as minhas diferenças, as minhas turras, com  o Mestre, nas raras oportunidades em que eu, na qualidade de aluno, o defrontei e me fora permitido opinar. Minha petulância juvenil era tanta que, em plena prova final de exame, ousei dele discordar, na prescrição dos cardiotônicos, pretensiosamente preferindo ficar com as idéias de Vaquez, velho cardiologista francês, a seguir o seu esquema prático de tratamento, adaptado ao nosso meio.
Revelando-se compreensivo e bom, nada intolerante e retrógrado – como o consideravam seus inimigos – suportou a insolência e os pruridos da minha vazia sapiência e me deu a nota distinta, que lhe pareceu justa.
Fizemos as pazes – de uma briga que nunca existiu – e, com isso, nos tornamos amigos para sempre, numa união sólida e sincera, como se ele fosse o pai generoso e bom e eu o filho respeitoso e dedicado. Amizade que se mostrou sólida e definitiva nas lutas em que me empenhei para criar o IBIT e defender a Clínica Tisiológica, nas duas estórias marcantes da minha carreira científica...
Jamais poderei esquecer a posição humilde, recebendo e controlando as entradas, num clube social, em festival a favor do nosso Instituto, daquele mestre austero e distante...
Fixados, em minha memória, contra quase toda a Congregação e ao meu lado, ficaram os gestos de apoio à nobre causa do pavilhão de Tisiologia, quando, na sua costumeira intrepidez, declarou alto e claramente que “a palavra do Reitor prepotente não merecia fé nem escrita nem estampilhada”...
Provas de que tínhamos razão foram a vida difícil e tormentosa dessa Clínica Tisiológica – jóia arquitetônica presenteada à Faculdade, por Clemente Mariani – e o destino que lhe deram por último, não sabendo mesmo como dela melhor se utilizar.
Lamentavelmente, depois de uma atuação respeitável e luminosa pela Faculdade, na sua vida particular e pública ... após ter conquistado uma das maiores clientelas da Bahia, tão pouco ganancioso fora, a pobreza lhe bateu às portas...
Seus últimos dias – ajudados por Fernanda e Ângelo, seus queridos filhos – foram passados na humildade de um Asilo, onde todos o queriam e acarinhavam ... A esclerose não lhe permitiu sequer sentir as provas de apreço e admiração que lhe tributavam...
Esquecido dos nomes e das fisionomias, raramente identificava as pessoas...”


APÊNDICE II
DEPOIMENTO DE UM DISCÍPULO E ADMIRADOR
   Leite, Geraldo. Reminiscências. Universidade Estadual de Feira de Santana. Feira de Santana, abril de 2007

GERALDO LEITE

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“Durante mais de quarenta anos, exerceu o Professor Fernando São Paulo a clínica particular em seu humilde consultório, localizado à Rua da Misericórdia. Ali recebia seus clientes de Salvador, de Feira de Santana e toda a Bahia com carinho e simplicidade que a todos enchiam de confiança de alegria.
Humanista e escritor de esmerado estilo, amante dos clássicos e da música erudita, deixou – ao lado de trabalhos científicos de inegável valor – várias obras literárias e folclóricas, destacando-se, dentre elas, o celebra “Dicionário de Linguagem Médico-Popular do Brasil”.
O Dicionário, único sobre o assunto, é obra esgotada. Como lembrou o Professor Jayme de Sá Menezes, em artigo publicado no ano de 1993, deve ser reeditado pelo Conselho Estadual de Cultura. A Universidade Estadual de Feira de Santana possui alguns exemplares uma vez que a família do Professor Fernando José de São Paulo, quando eu era Reitor da UEFS, ofereceu sua biblioteca àquela  Universidade.
A última vez que o Professor São Paulo  foi no Abrigo da Ordem Terceira de São Francisco. Velhinho, completamente esclerosado, sentado ao pé de uma mesa, ouvia um rádio de pilha em companhia de um rapazote de pouco mais de dez anos. O rapaz, sintonizava o aparelho em uma emissora que irradiava uma partida de futebol, e ele procurava sintonizar uma estação que tocava música erudita. A disputa continuava e o jovem implicava com a teimosia do ancião. Eu não pude me conter e disse ao jovem que aquele velho era uma das pessoas mais importantes que eu conheci em minha vida e que ele, uma criança, deveria respeitar a vontade do professor. Fosse para a sala ouvir o futebol em outro rádio e eu ficaria ouvindo música com aquele velho.
Eu,-- reitor da Universidade onde aquele ancião dizia, em suas aulas, a modo de gracejo, que não havia realizado sua pós graduação na Europa, “mas na universidade de Feira de Santana”, isto é, no convívio com a prática diária” -- permaneci ao seu pé, rendendo graças ao Criador pela honra de fazer companhia ao meu mestre nos seus últimos meses de vida.

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Outro mestre, o Professor José Silveira, relata o último encontro com Fernando  São Paulo: “Meu último encontro com Fernando São Paulo – diz ele- deixou-me profundamente chocado: desaparecera  -- como escrevi alhures -- , toda sua vivacidade espiritual. Com dificuldade, recompunha episódios da nossa vida em comum. Alheara-se do ambiente e da realidade. Repetia apenas questões e episódios da Faculdade de Medicina, que ele tanto honrara e onde encontrara também tantas incompreensões e injustiças.
E quando uma velhinha sua companheira  do abrigo franciscano --  onde terminou seus dias – perguntou-lhe se estava me reconhecendo, sem hesitação, respondeu: “Como não, se esse é o meu José?”
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Assim terminou seus dias o meu querido mestre, um dos mais famosos da minha geração...”
















 

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