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By Ferramentas Blog

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

ÁLVARO RUBIM DE PINHO

ÁLVARO RUBIN DE PINHO



*

Filho do médico  Álvaro Madureira de Pinho, nasceu em Manaus, no dia 22 de fevereiro de 1922.
Seus pais mudaram-se para Manaus no início do século XX e lá tiveram oito filhos, dos quais o mais moço recebeu o nome do progenitor e, como o pai, honrou a medicina.
Desde a infância ouviu seu pai falar, com saudade, da Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus. Por ela se encantou e nela desejou estudar.
Aos 16 anos de idade, partiu para a Bahia, cheio de esperança.
Em 1940,ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia. Foi  um aluno brilhante, e líder que congregava em torno da sua pessoa grande número de estudantes.
Diplomou-se em 1945. Foram seus colegas de turma: Jahir Francisco Burgos, Orlando Moscoso de Araújo, Sebastião Azevedo, Rubem Soares Brasil e Wilson da Costa Falcão (9).
Em 1955, após memorável concurso, conquistou a Livre Docência de Clínica Psiquiátrica.  De 1954 a 1956, foi Professor adjunto e, em 1958, conquistou, em brilhante concurso de títulos e provas, a cátedra de Psiquiatria.
No Conselho Regional de Medicina da Bahia, desenvolveu, no período de 1959 a 1964, profícuo trabalho, sendo eleito seu Presidente.
Em 1960, teve seu nome sufragado para a presidência da Associação Baiana de Medicina.
Em 1968 foi eleito Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria e, logo em seguida, 1º Vice-Presidente da Associação Médica Brasileira.
Em 1981, foi admitido na Academia de Medicina da Bahia, da qual foi presidente por dois mandatos sucessivos.
Dois anos depois, tomou posse como membro correspondente da Federação Brasileira das Academias de Medicina e das Academias de Medicina do Rio de Janeiro e Minas Gerais.
No Conselho Penitenciário do Estado da Bahia, teve atuação marcante, sendo considerado um de seus membros mais proeminentes. 
Finalmente, em 1993 recebeu o título de Professor Emérito da Faculdade de Medicina da Bahia.
Álvaro Rubim de Pinho “ foi um homem múltiplo. Como professor foi mentor e formador de sucessivas gerações de psiquiatras baianos; como homem político foi  um ativo participante na liderança da política médica em nível regional e nacional; como pesquisador, seguiu a trilha aberta por Nina Rodrigues e Artur Ramos ampliando e difundindo idéias de uma psiquiatria que levasse em conta as crenças, crendices e o imaginário popular; como psiquiatra forense e como psiquiatra transcultural é reconhecido nacional e internacionalmente” ( 8) .
Publicou cerca de setenta trabalhos, de grande importância médica e literária.
Seus estudos sobre o sincretismo religioso são de grande profundidade, sobretudo os referentes à “possessão”, à crença no “mau olhado”, o “banzo”, e a “caruara”.
Em 1994, durante as comemorações da “Semana do Médico”, Álvaro Rubim de Pinho, atendendo programação anteriormente agendada,  levantou-se do leito e compareceu, pela última vez, à sua Faculdade, para proferir belíssima conferência.
Faleceu  poucos dias depois.


FONTES BIBLIOGRÁFICAS:

1-ALVARO RUBIN DE PINHO. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S151644462003000100015&script=sci_arttext. Acesso em 23 de novembro de 2008.
2-ÁLVARO RUBIN DE PINHO. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S151644462004000400018&script=sci_arttext. Acesso em 23 de novembro de 2008.
3- Editorial- Homenagem Póstuma a Álvaro Rubim de Pinho –Anais da Academia de Medicina da Bahia, vol. 10 : 11. Empresa Gráfica da Bahia. Salvador, dezembro de 1994.
4- Leite, Geraldo – Reminiscências - Imprensa Universitária. Universidade Estadual de Feira de Santana. Feira de Santana, 2007.
5-    Macedo Costa, Luiz Fernando – Saudação ao Acadêmico Rubim de   Pinho. Anais da Academia de Medicina da Bahia, volume 4:23. Bahia Gráfica e Editora Ltda. Salvador, junho de 1982.
6- Milton da Silveira, Geraldo – Professor Emérito Álvaro Rubim de  Pinho. Anais da Academia de Medicina da Bahia, volume 10: 175. Empresa Gráfica da Bahia. Salvador, dezembro de 1994.
7-  Piccinni, Walmor J. – Álvaro Rubim de Pinho (1922-1994) – Disponível em http://www.polbr.med.br/arquivo/wal0204.htm. Acesso em 23 de novembro de 2008.
8-  Rodrigues da Cruz, Thomaz – Ao Mestre Rubim, com carinho. Anais da Academia de Medicina da Bahia, volume 10: 137. Empresa Gráfica da Bahia. Salvador, dezembro de 1994.
9- Tavares-Neto, José – Formados de 1812 a 2008 pela Faculdade de Medicina da Bahia. Feira de Santana, 2008.





APÊNDICE I

MÃE SENHORA (I)




“ Maria Bibiana do Espírito Santo, chamada Senhora, tratamento costumeiro dado às mais velhas das famílias baianas, daquela época, nasceu em Salvador, em 31 de março de 1900. Descendente de tradicional família da nação Keto, de acordo com Deoscóredes Maximiliano dos Santos, seu filho, conhecido por Didi.
Pierre Verger trata do assunto mais detalhadamente quando nos fala da criação do primeiro terreiro de candoblé da Bahia, por “várias mulheres enérgicas e voluntariosas originárias de Keto, antigas escravas libertas pertencentes à Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, da Igreja da Barroquinha”. Este terreiro, que originariamente esteve situado na Barroquinha, mudou-se para a Vasco da Gama, onde está instalado até hoje, sob o nome de Ilê Iya Nassô, conhecido como a Casa Branca e dele originaram os terreiros do Gantois (Ilê Axé Omi Iyamassê) e o Ilê Akê Opô Afonjá).
Uma dessas “mulheres enérgicas era Iyanassô Akalá, mãe “não se sabe se de sangue, se mãe espiritual ou prima” de Marcelina da Silva, O batossi, que teve uma filha chamada Madalena. Esta, tendo acompanhado sua mãe a uma viagem a Keto, na África, voltou grávida de Claudiana, a mãe de Maria Bibiana do Espírito Santo. “Pelo jogo complicado das filiações, Senhora era bisneta de Obatossi, por laços de sangue e sua neta pelos laços espirituais da iniciação”.
Não se tem muita informação sobre a vida de Maria Bibiana, do nascimento até os sete anos, talvez em razão da pouca importância que se dá nas comunidades do candoblé  aos fatos e datas da vida secular e do pudor cerimonioso com que são tratados os fatos da vida pessoal dos seus membros, sobretudo aqueles tornados líderes, com uma posição e autoridade a serem preservados.
O que sabemos é que foi iniciada aos 7 anos de idade. Alguns AA. falam de 8 e 9 anos e que nessa época já recebeu de sua mãe-de-santo, Aninha, a “cuia” que pertencera à sua bisavó, Marcelina Obatossi, direito que normalmente só se adquire após a obrigação dos sete anos.
A mãe-de-santo Eugênia Ana dos Santos (1869-1938), Iá Obá Biyi (Aninha), a fundadora do Ilê Axé Opô Afonjá (em 1910), foi uma iyalorixá de enorme carisma. Era filha de africanos e teve formação religiosa bastante aprimorada com “antigos tios e tias, profundos conhecedores da seita africana”; foi líder religiosa respeitada pelo conhecimento e obediência aos fundamentos do culto; por sua liderança inconteste, sua autoridade, mas também por sua compreensão e generosidade para com seus filhos espirituais e amigos. Era uma mulher inteligente, informada e com inegável sensibilidade para o trato com personalidades da vida social e política do seu tempo, habilidades que facilitaram conquistar vitórias importantes para sua comunidade e a sociedade de então. Conviveu e tornou-se amiga de intelectuais, renomados pesquisadores e ativistas políticos que a ela se referiam com admiração e respeito.
O envolvimento com estas personalidades levaram-na a dar-lhes abrigo quando foram perseguidos pela polícia política do Estado Novo e entregou-os aos cuidados de D. Senhora, então Ossi Dagã do Axé, fato só divulgado mais tarde por Édison Carneiro.
Apesar do rigor com que dirigiu o culto e a vida da comunidade, D. Aninha não hesitou em atender ao convite de Édison Carneiro para participar da organização do Segundo Congresso Afro-Brasileiro, em 1937. Recebeu os congressistas com uma festa na roça “que impressionou a todos pela pureza e formosura do ritual”.
Outro feito importante da fundadora do Axé foi o de obter do Presidente Getúlio Vargas a liberdade para a prática religiosa, através do Decreto 1202, pondo fim, pelo menos legalmente, a terrível perseguição policial às casas de culto e profanação dos assentos sagrados dos orixás.
Mãe Senhora era filha de santo de Obá Biyi, e foi por ela preparada para ser sua sucessora. De certa forma ela anunciou este predestinação quando entregou à menina Senhora os objetos simbólicos da sua emancipação religiosa  (cuia contendo os objetos utilizados no ritual da iniciação – tesoura e navalha para a raspagem da cabeça e a faca para os sacrifícios) após sua primeira obrigação iniciática.
Com a morte de Mãe Aninha e “depois de realizadas todas as obrigações e preceitos de acordo com a liturgia da seita, e tudo regularizado dentro do Axé Opô Afonjá, em julho de 1929, Mãe Senhora assume, ainda, o título de Iyalaxé, a direção do terreiro –“como era de direito, devido à sua tradicional família da nação Ketu “ao lado de Mãe Bada, Maria da Purificação Lopes, Olufan Deiye, já idosa, mas reconhecidamente sábia e experiente, propiciando uma transição segura e tranqüila até a sucessão concluída com sua morte e luto ritual.
Segundo Mestre Didi, em 19 de agosto de 1942, Senhora tornou-se de fato e direito a Iyalorixá do Axé.
No culto dos eguns, mãe Senhora recebeu o título mais elevado dado a uma mulher – Egbé. A ela foram entregues inúmeros filhos e filhas “adotivos” que fizeram sua iniciação no Opô Afonjá, muitas vezes a despeito da reserva e desaprovação dos velhos líderes, que não concordavam com a adesão de seus filhos ao culto dos orixás.
Sua fé em Xangô era inabalável, e sua dedicação ao orixá de sua mãe-de-santo era “maior até que ao seu próprio orixá”.
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Diz Agenor Miranda: “Era linda, Senhora, uma mulata muito bonita e muito caprichosa. Nunca viveu propriamente do terreiro. Ela tinha uma barraca no Mercado Modelo, dentro do mercado, que se chamava “Vencedora” e vendia tudo que representasse a Bahia: fitas, figas, essas coisas todas.
Senhora, como iyalorixá, que me perdoem até se estou sendo injusto, acho que suplantou muita gente. Todo mundo conheceu mais Senhora do que outras mães-de-santo e não foi só em Salvador. No Rio de Janeiro, também, onde ela recebeu o título de “Mãe-Preta do Brasil”.
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Acrescenta Juguaracyra  Sant´Ana: “Mãe Senhora foi homenageada no Rio de Janeiro pelo Presidente da República, que mandou erguer um monumento e denominou como “Mãe-Preta do Brasil”, homenagem muito merecida. O Alafin de Oxó mandou uma delegação homenageá-la com o título de Iya Nassô.

FONTE:  Maria  Bibiana do Espírito Santo – Mãe Senhora. Coletânea organizada por José Félix dos Santos e Cida da Nóbrega. Salvador, 2000)



APÊNDICE II

MÃE SENHORA (II)




O AVISO DE XANGÔ

Ricardo Cravo Alvim
                                                          
                                                                                                   
     
        


                                                              *

“Estávamos  em Salvador, se não me falha a memória, lá pelo mês de maio, para participar de um festival de compositores baianos no novíssimo Teatro Castro Alves. Convidados especiais do Rio para o júri: Sérgio Porto, Quarteto em Cy, Oscar Castro Neves e eu.
O festival apresentava uma curiosidade, o que só mesmo na Bahia poderia acontecer: o júri era presidido por duas pessoas ao mesmo tempo, Jorge Amado e Dorival Caymmi. Lembro-me de que, num sábado, Zélia e Jorge Amado nos levaram ao Apô Afonjá  para um encontro com a Mãe Senhora, a maior Iyalorixá da Bahia. Éramos três pessoas, além do casal de escritores: Sérgio, sua mulher, Elzinha e eu.
Mãe Senhora, uma rainha portentosa e elegante, de trato afável, quase amorável, jogou os búzios para cada um de nós.
Sérgio Porto foi o último, como a indicar, a anfitriã, uma homenagem ao visitante mais importante. No que os búzios foram espalhados, Senhora empalideceu e recolheu-os rapidamente, anunciando uma outra rodada de mão, a que se seguiram apenas abobrinhas.
Antes de nos despedirmos, a Iyalorixá chamou-nos a um canto, enquanto Sérgio ia ao banheiro, e anunciou em tom grave: Ele não está bem, e os búzios me indicaram um corte radical até novembro. Dito e feito. Elza Porto e eu nos demos conta da previsão no velório de Sérgio, exatos seis meses depois.”

FONTE:  Maria  Bibiana do Espírito Santo – Mãe Senhora. Coletânea organizada por José Félix dos Santos e Cida da Nóbrega. Salvador, 2000


APÊNDICE III

MÃE SENHORA (III)

O ENTERRO DA IYALORIXÁ
Jorge Amado




*

“O enterro da Iyalorixá saiu da Igreja de Nossa Senhora dos Negros, no Largo do Pelourinho, praça ilustre e sofrida, chão de pedras regadas pelo sangue dos escravos ali sujeitos ao tronco e ao pelourinho.
O corpo da mãe-de-santo ficou exposto na tarde de um domingo de sol e tristeza. A notícia ia sendo propagada de boca em boca, pois a morte sucedera após os jornais. O impacto retirava gente das praias, das diversões, do descanso dominical. De todas as encruzilhadas surgiam pessoas atônitas e apressadas, no átrio da igreja toda azul se misturavam homens e mulheres das mais diversas condições sociais no mesmo espanto doloroso.
A notícia ia devorando o domingo da cidade, a calma e a trêfega alegria. Nas ondas do rádio, brutal comunicado substituía a música habitual: “Faleceu dona Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, mãe-de-santo do Axé Opô Afonjá, a mais famosa da Bahia”. Para muitos parecia impossível acreditar na notícia. Tão forte ainda, aparentemente tão sadia, com sua presença, sua força de comando, sua intimidade mágica com os orixás, ainda na véspera Senhora cantara para Xangô e dirigia as obrigações do candoblé.
No átrio da igreja, amigos trocavam cumprimentos e interjeições de incredulidade.
Surgem hipóteses:
-- Só se foi ebó ... Feitiço, coisa feita ...
Uma  pessoa do Axé, grave e informada, esclarece:
-- Foi doença de médico ... Xangô já falou e disse...
Lágrimas em muitos olhos, filhas-de-santo desamparadas, os órfãos de Mãe Senhora contam-se às dezenas, sua morte atinge a cidade inteira. Pela ladeira, o tráfego aumenta a cada instante, sobe e desce gente em busca da igreja.
Nessa mesma Igreja do Rosário dos Negros foi velado o corpo de Mãe Aninha, fundadora do Axé Opô Afonjá, mãe-de-santo de Senhora. Senhora fez santo aos nove anos de idade e foi Aninha que lhe raspou a cabeça e a consagrou a Oxum.
Quando Aninha morreu, em 1938, deixara Senhora preparada para sucedê-la na direção do grande candoblé. Mas outras filhas-de-santo também desejavam o posto e uma guerra-de-santo se desencadeou durante anos até que a confirmação de Senhora fosse assunto pacífico e que sua personalidade se impusesse numa presença respeitada por todos. Jamais uma Iyalorixá foi tão poderosa e reinou com poder tão absoluto no mundo complexo e mágico do candoblé da Bahia quanto Mãe Senhora.
Altas honrarias lhe foram concedidas, e seu poder atingia distâncias e alturas de espantar. Na fímbria da cidade da Bahia, ela se destacava sobre a vida e a morte, sobre a alegria e a tristeza, sobre o ódio e o amor.
Sua sucessão trará outra guerra-de-santo ? Quem vai tomar o posto no trono de mistérios, quem a sucederá na guarda do segredo ? Os cochilos começaram no átrio da igreja. Lá dentro o corpo de Iyalorixá recolhe lágrimas e pranto, palavras de saudade e de inconformado desespero. De quando em vez um soluço se eleva. Os altares estão povoados de orixás e as águas das fontes e dos rios de Oxum rolam pela praça,, descem as ladeiras, precipitam-se no Pelourinho.
-- Quem irá para o seu lugar ?
-- Quem ?
-- Quem vai dizer é Xangô, quando o jogo for feito ...
Mãe Senhora morreu de manhãzinha, na véspera cumprira obrigação de santo até tarde, noite adentro. A morte a alcançou na hora do primeiro sol e seu corpo ocupou, imenso, a casa de Oxalá. A notícia desceu para a cidade: obás, ogãs, filhos e filhas-de-santo dirigiram-se para os caminhos de São Gonçalo, onde se ergue o terreiro.
A cidade foi tomada de surpresa e comoção, um impacto violento.
Na vida dessa cidade da Bahia, que não se parece com nenhuma outra, a Iyalorixá Senhora era uma figura das mais importantes. Guardiã de tradições e de rituais que resistiram a todas as perseguições, que superaram a desgraça da escravidão, que trouxeram a dança e o canto africanos até os dias de hoje. No complexo cultural baiano (e brasileiro, pois a Bahia é a matriz inicial e fundamental), o povo tem o primeiro lugar, o papel definitivo.
Quem presidiu as obrigações do axexê, das cerimônias fúnebres, foi outra famosa mãe-de-santo: a Iyalorixá Meninha do Gantois, irmã-de-santo da falecida e sua grande amiga. Veio do seu terreiro do Gantois, de onde quase nunca sai, para as pesadas tarefas de Egum. Nenhuma outra mãe-de-santo poderia fazê-lo devido à qualidade da falecida e à sua importância. Numa sutil hierarquia que não é imposta por nenhum decreto, Senhora está praticamente acima das demais, só Menininha era sua igual no conhecimento e na experiência.
Das três grandes Iyalorixás dos últimos tempos, agora resta apenas Mãe Menininha do Gantois. A primeira a falecer foi Tia Massi, do Engenho Velho, venerada figura centenária. Cumprira os 103 anos quando morreu. Dançou para os orixás até os últimos dias. Agora, numa cerimônia de acesso permitido apenas a alguns iniciados, Menininha cumpre as primeiras obrigações do axexê de Senhora, sua irmã-de-santo, antes que o corpo seja levado para a igreja católica. Mais uma vez, se interpretam cultos e rituais de culturas, de religiões, de cores, de originalidade.
Importante mãe-de-santo, Senhora era igualmente importante membro de confrarias católicas.
Da igreja superlotada sai o enterro às cinco horas da tarde. O acompanhamento é grande e grandioso: gente de seitas afro-brasileiras, muitos intelectuais amigos de Senhora, alguns com postos importantes no Axé, como o tapeceiro Genaro de Carvalho, a face cortada de tristeza. O poeta Hélio Simões vai ao seu lado. 
O carro funerário, os automóveis e os ônibus dirigem-se ao Cemitério das Quintas, onde, em terras da sua confraria católica, Senhora tem o direito a jazigo perpétuo.
O cemitério fica no alto de uma colina, mas o carro funerário, os automóveis e os ônibus não sobem a ladeira, como em qualquer outro enterro. Desta vez, a morta e os acompanhantes desembarcam no sopé da ladeira. Obás e ogãs, alguns dobrados ao peso da idade, velhos tios de cansada história, tomam o caixão e três vezes o sustentam, três vezes o baixam no início do ritual do enterro nagô.
A voz do pai-de-santo Negrinho se eleva sobre a rua no canto fúnebre em língua ioruba. O enterro segue\; três passos em frente, dois atrás, passos de dança ao som do cântico sagrado, o caixão suspenso nos ombros dos obás. As janelas estão cheias, vem gente correndo para ver o espetáculo único. Enterro igual a esse não existe. Mãe Senhora preside sua última festa, transportada por seus obás. A dança enche a rua, dançam todos ao som das cantigas de despedida. Os obás e os ogãs, de costas, entram comm o caixão no cemitério.
Ao lado do jazigo, em meio às flores e ao pranto, as derradeiras cantigas, quase como uma frase de amor, uma conversa de mãe e filhos, canto terno e doloroso: “Somos os últimos a ver esses coros”, diz o poeta Hélio Simões. Os atabaques estão silenciosos, todos se vestem de branco, que é a cor de luto, morreu a Iyalorixá mais famosa da Bahia.
Era uma pessoa sábia, sábia da sabedoria de uma vida inteira, ilustre da grandeza do povo. Foi enterrada no ritmo do canto, em passo de dança, bens do povo que ela ajudou a defender e venerar”.

FONTE: Revista Exu, n. 1 (Nov/dez, 1987). Fundação Casa de Jorge Amado. Salvador, 1987,

   Iyalorixá (Mãe de Santo). Imagem disponível em 
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APÊNDICE IV

RUBIN DE PINHO, OS TEMAS
POPULARES E O SINCRETISMO





“A aproximação de Rubim de Pinho com os temas populares e o sincretismo religioso tornaram-no figura conhecida no Candoblé  (nele estão fundidas e resumidas as várias religiões do negro africano).
Numa entrevista concedida por Mãe Stella à D. Solange Rubim de Pinho em 4 de maio de 2001 ela se refere ao Dr. Rubim de Pinho como Ogã de Oxalá e que era uma figura muito querida, muito presente, muito doadora, uma pessoa que fez muita falta quando Deus levou. Ele, na qualidade de Ogã, não é mais um espírito comum, ele é um ancestral.
Em depoimento para “Memórias Vivas da Psiquiatria Brasileira”, Rubim de Pinho comenta sua participação nesse campo.
Eu acho que os trabalhos de Psiquiatria Transcultural – embora nenhum deles do porte em termos de extensão de texto das teses – eles me deram provavelmente maior gratificação e eu diria, sem nenhuma vaidade, que eles me individualizaram, possivelmente, dentro de psiquiatria brasileira. Rapidamente, eu entendi, quando assumi a cátedra que, na Bahia, com as possibilidades de certa atuação no meio dos ambientes religiosos, no meio das seitas de religião afro-brasileira, eu teria oportunidade para retomar aquilo que eu considerava uma responsabilidade do catedrático de psiquiatria da Bahia; os temas que Nina Rodrigues inaugurara no fim do século passado e no começo deste século.
Outras citações de Álvaro Rubim de Pinho extraídas de “Psiquiatria e Candoblé” de Solange Rubim de Pinho e cols.:

·        “Defendo o ecletismo como posição mais adequada, considerando a Psiquiatria como uma ciência interativa. Mantenho minha curiosidade sobre o biológico, o social, não desprezando contribuições psicodinâmicas e nosológicas” (1).
·        “A cultura impregna a patoplastia de quase todos os delírios (...), isso adquire o máximo de evidência, quando se trata de psicose com feição vinculada a diferenças e mitos comuns a certas populações” (4)
·        “O misticismo propicia o conteúdo mais constante nos delírios da história, quaisquer que sejam as seitas em vigor. Entretanto, opiniões, desejos, temores e prejulgamentos, nem sempre diretamente vinculados às religiões, emprestam colorido próprio à temática das psicoses de cada momento” (4).
·        (...) Aquilo que terá acontecido no passado não mudou, no sentido de que os avanços que se fazem no plano da psiquiatria biológica parecem, em média, mais estáveis do que aqueles que se fazem no âmbito dos tratamentos psicológicos (...). Hoje, penso eu, esquizofrenia é esquizofrenia mesmo em qualquer cultura, embora continue a pensar que é um dever do psiquiatra estar instrumentalizado para perceber o patoplástico de sua cultura e então separar o que é realmente  mórbido e o que é fenômeno próprio da cultura (...) (3 .
·        “Cabe ao psiquiatra brasileiro de hoje conhecer a psiquiatria folclórica de sua cultura; distinguir, no quadro clínico, o que é patogênico e o que é patoplástico, sabendo valorizar nesse conjunto os elementos impressos pelas seitas; discriminar os casos cuja orientação não deve ser permissivo para os que realmente podem beneficiar-se das práticas religiosas” (2).

Poderíamos ir escrevendo os ensinamentos desse baiano que aprendemos a admirar e com quem  convivemos pelos muitos Congressos Brasileiros onde era presença marcante. Sempre delicado, sem levantar a voz ia se fazendo ouvido pelos seus pares e pelos jovens psiquiatras que se reuniam ao seu redor.  Sempre destacando as figuras que o influenciaram como Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Luiz Cerqueira e Nelson Pires, demonstrava  suas firmes raízes nordestinas e a universalidade das suas idéias. Junto com o peruano Carlos Seguin de quem era admirador construiu sua obra em torno da Psiquiatria Transcultural e Folclórica. Na primeira são feitos estudos clínicos e epidemiológicos visando apreciar as especificidades dos distúrbios  psíquicos de cada cultura. Já a Psiquiatria Folclórica implicaria nos métodos adotados por curandeiros no tratamento dos distúrbios psiquiátricos.”

FONTES BIBLIOGRÁFICAS:

1.     Alarcon Ribeiro, D.  -  Identidad de la Psiquiatria Latinoamericana. México: Singlo Veintuno Editores. 1990.
2.     Rubim de Pinho, Álvaro –A Visão Psiquiátrica do Misticismo. Diálogo Médico:  Misticismo e Psiquiatria, Rio de Janeiro. 1975; 1(2):21-24.
3.     Rubim de Pinho, Álvaro. Memórias Vivas da Psiquiatria. São Paulo. USP. 1986.
4.     Rubim de Pinho, Álvaro. O Cultural e o Histórico no campo do Delírio. Bol. CEPP (Boletim do Centro de Estudos e Pesquisas em Psiquiatria. São Paulo, 1983; 1(3).

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